Elevadores e sorrisos

quarta-feira, 1 de junho de 2016 |

Não sei há quanto tempo eu não entrava em um elevador, e eu sempre penso em ir pela escada, elevadores me geram ansiedade. Pensei bem, eram 8 andares, meu joelho inchado foi quem apertou o botão. A contagem regressiva começou do 12, 11, 10 até o 1. E eu pesando que já teria feito dois andares neste tempo. A porta se abre, entro aperto o 8, constrangida por ter mais alguém no mesmo metro quadrado.
_ Eu queria subir pro 15, mas desceu ao invés de subir, acho que fiz algo errado.
_ Eu gosto de sorrisos de mendigos. E de crianças.
_ Que?
_ Nada, você contou o que você tava pensando, eu tô pensando em sorrisos. Aqui no elevador ninguém sorri né.
Ele sorriu.

sexta-feira, 27 de maio de 2016 |

Querido diário,

Hoje fui no boteco e acabou a catuaba, achei amador.
Vamos ver se a vida supera esse baque.
Afinal...
"Caiu depois da área é penalti." Sócrates.

Homem-pássaro

sexta-feira, 20 de maio de 2016 |

Eu pensava que eu era um passarinho. Eu tentei voar várias vezes, já quebrei todos ossos possíveis. Eu ficava muito chateado de não conseguir voar, todos meus irmãos passarinhos já tinham voado, eu queria migrar com eles, mas eu nem podia voar, eu era muito frustrado, coloquei minhoca na boca de tanto irmão passarinho já, aí por fim eu fiquei com raiva e comia as minhocas sozinho, não dividia.
Aí esse médico me curou, foi bom por que eu não me machuco mais, mas eu continuo sem lembrar nada sobre o meu passado, eu não ninguém, nem um homem, nem um pássaro e continuo querendo migrar.

Dona Eulália viajou de avião

terça-feira, 3 de maio de 2016 |

Faz um mês da primeira parte desta história, naquele dia dona Eulália, a chefe de limpeza da empresa, chegou afoita me procurando, gritava meu nome pelos corredores, perguntava se alguém me viu. Por fim, quando eu saí do banheiro ela disparou a falar, primeiro me desejou um bom dia, disse que precisava da minha ajuda, que estava ansiosa - e eu podia ver como estava.

A irmã se chama Margareth, faz 20 anos que não se vêem, Eulália se mudou pra cá por conta de uma paixão, só não se arrepende pelos filhos que teve, mas não devia ter se mudado, não devia ter se casado, homem não presta e ela nunca mais viu as irmãs, Margareth também teve filhos, e uma das filhas, Lalinha, que também se chama Eulália, em homenagem a ela, resolveu pagar uma passagem de avião para dona Eulália, ou tia Eulália. Será perigoso andar de avião? Eu que já andei não devo ter medo, mas ela, na idade dela, ela não é dessas coisas, mas também não pode viajar três dias em ônibus, o corpo já não aguenta.

Senti que minha face revelava o turbilhão de informação que eu recebia, eu me assustava, incomodava, franzia o cenho, forçava um sorriso. Dona Eulália seguia, então a sobrinha ia pagar a passagem e ligou naquela manhã pra dizer que tinha uma promoção, que naquele preço dava pra ela ir e, finalmente, se eu podia ajudar ela a comprar, ela só sabia ligar o computador pra ver as fotos no Facebook, as fotos que Lalinha postava e os filhos dela recebiam, e me garantia que era verdade, ela via foto da irmã na tela do computador, a informática era um trem de louco.

Fomos comprar a passagem, com toda burocracia que é comprar uma passagem aérea, foi difícil convencer a dona Eulália que ia dar certo, cada mensagem de erro, cada vez que eu pedia um novo documento, ela revidava, será que eles estão pensando que eu não tenho o dinheiro? Será que é porque eu nunca viajei de avião? Eu disse que não, a coisa era assim mesmo. Ah, então deve ser por causa do pessoal que viaja pros Estados Unidos, a irmã caçula dela e de Margareth, que se chamava Áurea viajou pra lá, morava lá agora, mas ela foi pelo rio, lá pelo México e se casou com um mexicano, tinham dois filhos parrudos, morenos, eu precisava vê-los, que's meninos mais lindos. Quem sabe um dia os sobrinhos americanos pagassem passagem pra ela ir lá, e corou a face.

Compramos a passagem, imprimi o comprovante, expliquei como ela ia usar, ajudei ela a conseguir a folga com o chefe, desejei toda sorte nas férias, vinte e duas vezes seguidas, porque ela passou a me visitar vinte minutos todos os dias, perguntava como era o avião, como tinha que se portar, decidiu comprar uma mala nova, não ia com mala de vinte anos atrás num aeroporto chique, todo mundo ia rir dela, ela odiava que caçoassem dela. Cortou o cabelo, comprou roupas, presentes para as irmãs e os sobrinhos, me pediu opinião sobre tudo isso. Ouvi casos, muitos casos.

Quando a data se aproximou ficou muito nervosa, disse que estava velha, as irmãs iam achá-la feia, as sobrinhas não a conheceram da juventude, quando ela era muito bonita e podia escolher marido. Queria conhecer Lalinha, queria poder levar os filhos na mala. Ah, a mala, isso de pode e não pode era uma confusão, não podia levar queijo, e as meninas estavam doidas para conhecer o queijo, um absurdo, tecido bonito para as irmãs costureiras podia e as tesouras tinham que ir na bagagem de despacho. Despacho, parece até coisa de candomblé, bagageiro era muito melhor. Prometeu a si mesma que não ia de cinto, morria de medo de ser parada na máquina que apita e acharem que ela estava com arma e fosse só a fivela, ia ser um micão.

Eulália me perguntou como eram todos os procederes do avião, o que tinha que fazer, onde tinha que ir, como era tudo, se as pessoas falavam inglês. Toda a família me adicionou no Facebook, me convidou para ir junto, disse que mandaria presentes. Resolvi mandar um presente, mandei um pote de doce de leite do meu favorito. No último dia Eulália foi embora no meio do expediente, com os olhos lacrimejando, me agradeceu, prometeu trazer presentes, me contou sobre o dia que se mudou pra cá, como saiu de lá, que horrível despedir e sua chegada também não tinha sido fácil. Disse que mandaria fotos e cogitou não voltar, que eu não falasse com o chefe, ela não tinha falado nem com os filhos. Eu chorei.

As últimas palavras antes de sair do escritório foram "me sinto tão chique, não sei se é mais chique voar em avião ou conhecer meus sobrinhos" e se foi. Por uns segundos fiquei com um sorriso no rosto, pensando que era tão normal andar de avião e dona Eulália era simples. Aí pensei, que era chique ser normal andar de avião e dona Eulália era a mulher mais chique que conheci. Um mês depois as irmãs de Eulália me escreveram, ela resolveu ficar pra sempre, se dava tempo de eu chegar para o velório.

*Como tudo neste blog trata-se de uma obra de ficção.

A violência não é única

quarta-feira, 20 de abril de 2016 |



Traduzi este texto para que uma amiga lesse a achei que devia publicar em algum lugar, para que outras pessoas pudessem ler, nunca usei este blog para este tipo de postagens, mas não vou criar outra página apenas para publicar a tradução.

Trata-se da tradução do texto de uma comunicadora (?) argentina, conhecida sobretudo por seus vídeos e programas humorísticos, o texto é sobre violência de gênero e bastante esclarecedor. A tradução é livre título original seria "A violência não é uma/La violéncia no es una", mas para compreensão mais orgânica em português traduzi como "a violência não é única", tomei o mesmo tipo de liberdade em outras partes do texto.



A VIOLÊNCIA NÃO É ÚNICA

Malena Pichot


Sempre que se fala de violência de gênero parece que muitos começam a se incomodar, o repúdio é imediato, instantâneo, muito parecido a uma reação programada. Quando se fala de violência de gênero uma frase se repete em todos aqueles que se negam a refletir de verdade sobre o tema: “a violência é única”. Este é o lugar comum para tornar invisível um problema que para muitas pessoas é obscenamente visível. “A violência é única” é a frase mais perigosa que li nos últimos tempos nas redes. Quando se diz isto, estamos igualando uma infinidade de conflitos, que de nenhuma maneira são iguais. Não é o mesmo que dois homens troquem socos, a que um homem dê socos em um ou uma menor. Não é o mesmo que duas mulheres se troquem socos, a que uma mulher dê socos em um ou uma menor. Não é o mesmo que te bata um colega de sala a que te bata um professor. Não é o mesmo que te bata um desconhecido na rua a que te bata um policial. Não é o mesmo que te sequestre um criminoso comum a que te sequestre uma organização paramilitar do estado. Não é o mesmo. Podemos encher a boca dizendo que toda violência está mal, sim claro, quem discutiria, mas com estas sentenças óbvias e vazias chegamos apenas até aqui.

A realidade é que estas violências estão muito claras, porque são irrefutavelmente condenadas pela sociedade e não é preciso explicar a ninguém o que significam, não é preciso convencer ninguém de que são verdades e de que acontecem. Agora, quando se trata da violência de gênero, essa violência que parte especificamente do homem heterossexual como representante do discurso hegemônico, aí já ninguém quer falar do tema. Ninguém quer falar profundamente disto, porque não queremos nos colocar contra aos homens heterossexuais de nossas vidas a quem tanto amamos. Mas, não é hora de deixar de ter medo inclusive dos homens queridos de nossas vidas, para poder dizer e pensar o que queremos realmente?

Ninguém quer se meter muito, porque meter-se na violência de gênero é em parte aceitar que todos e todas podemos estar formando parte do problema. Parece que o mais difícil de aceitar é também o mais óbvio: que um homem bata em uma mulher não é o mesmo que uma mulher bata em um homem. Doa a quem doer. Claro que ambas estão mal, mas não são o mesmo. E também é difícil de aceitar que nem toda violência exercida a uma mulher tem a ver com uma questão de gênero, com o fato de que seja mulher. Se fosse assim ninguém poderia nunca fica com raiva de uma mulher, o que é ridículo. As mulheres (oh surpresa) somos pessoas e como tais, podemos ter todas as qualidades das pessoas, podemos ser honestas ou criminosas, boas ou más e todos seus cinzas. As mulheres não somos “seres alados de pura bondade”. Alguma vez você vai insultar uma mulher E não será violência de gênero. Não é o mesmo insultar a alguém porque te mentiu a insultar alguém por sua sexualidade. Não é o mesmo insultar a alguém porque chegou tarde a insultá-lo por sua origem. Não é o mesmo insultar a alguém porque te roubou a insultá-lo porque já não quer te ver mais. Não é o mesmo um ladrão que bate em homens e mulheres em um roubo, a um marido que bate em sua esposa sistematicamente. Não é o mesmo. Colocar tudo na mesma bolsa de “a violência é única” é fazer um esforço para não entender o problema.

Quantas vezes você viu um homem maltratar severamente a sua namorada ou esposa e não disse nada porque te pareceu que era “um tema particular deles”? Quantas vezes escutou “fulano bate em fulana” e por dentro pensou “bom, se ela não o larga por algo será”? Quantas vezes escutou o depoimento de uma vítima de uma violação e disse “tem que ver se é tão assim, eu não acredito”? Quantas vezes escutou que seu ídolo era um abusador e escolheu dizer “isto é impossível” e não pensou mais no assunto?

O que acontece com a violência de gênero diferente de qualquer outro tipo de violência é um primeiro impulso de negação, e por isso diferente das outras é uma violência endossada pelo estado. Esse primeiro impulso de negação é o que o discurso hegemônico programou em nossas mentes ao longo de nosso desenvolvimento nesta cultura. É a concepção da mulher como objeto e possessão do homem, homem que tem o direito de fazer o que quer com nosso corpo: “se você vai à casa de um cara é para transar, se não fique na sua”, escuramos infinidade de vezes. Então, se você entra na casa de um cara já perdeu toda condição de pessoa e é um objeto dele, igual que seu sofá. Nos ensinam, às mulheres, a agradar aos homens em tudo, mas depois se suspeita de nós se não sabemos nos defender. A violência de gênero é a violência e o abuso a pessoas exclusivamente por pertencer a um gênero que não é o dominante. Como feminista creio na importância de desarmar a ideia de dois gêneros únicos, mas está claro que há um gênero dominante e opressor nesta cultura patriarcal e é o gênero masculino, acreditar que um homem cisheterossexual pode ser discriminado por ser um homem cis heterossexual é o maior absurdo do mundo. As personas homossexuais, travestis e trans são golpeadas e mortas exclusivamente por isso, só por isso, às mulheres nos matam por dizer que NÃO. Nenhum homem heterossexual é brutalmente assassinado por ser um homem heterossexual, e isso é importante entender de uma vez por todas.

A violência NÃO É ÚNICA, há uma violência homofóbica, há uma violência transfóbica, há uma violência de gênero, há uma violência institucional, há violência familiar, violência laboral e seguramente muitas mais com as que não estou familiarizada e espero poder fazê-lo no futuro. Compreendê-las, analizá-las, investigar sua origem é a maneira de combatê-las. Aceitar que podemos estar fomentando estas violências desde nossa ignorância é um passo duro que é preciso que dar. Todos somos machistas porque nascemos e crescemos nesta cultura, mas algumas pessoas decidimos nos corrigir a cada passo.

Link para o original: http://www.malenapichot.com/la-violencia-no-es-una

A menina volta a me questionar

domingo, 3 de abril de 2016 |

A criança: mas como você decide se gosta ou não de alguma coisa?
Eu: decidindo se você acha aquilo bom ou ruim, certo ou errado.
A criança: então você tá dizendo que eu não posso achar ruim e errado, e mesmo assim gostar?
Dois minutos de silêncio. É que eu não posso responder a verdade.
Eu: Não. É uma espécie de ditadura do gostar.
A criança: e o que é ditadura? É mais dura que quebra-queixo?

A menina me questiona

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Antes eu pensava, que se o céu desabasse as montanhas iam segurar, mas agora eu penso diferente: se as montanhas desabam, quem segura o céu? Quem segura as montanhas? E se o chão se abre? Mas já vem tu, com esta história de que o céu não desaba, que ele tá muito longe, e nós que estamos nele. Ideia de doido. Essas fotos de fora da terra que tu coleciona. O mais engraçado, é que em nenhuma delas aparece Deus, se tuas fotos são do céu, cadê Deus, os anjos e os mortos?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016 |

Confissão da madrugada: já não sei contabilizar há quantos anos tenho 18 mensagens não lidas no e-mail. Posso apagar uma e marco outra como não lida, é uma mania, tenho que ter "(18)" escrito na aba dos e-mails. Nunca durmo sem antes acertar os números para manhã seguinte.

O mendigo

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 |

Na praça o calor começava antes do sol tomar a sombra da árvore em que ele dormia. Então levantava bem cedo, cumprimentava cada uma das estátuas, o pipoqueiro, corria atrás das pombas, para vê-las subir no fio de luz. Batia na porta de alguém para pedir pão "de ontem" e algumas vezes lucrava até um café, em sua caneca esmaltada pendurada à tira-colo.

Naquele dia resolveu ir pedir pão na Igreja, às vezes o padre lhe acrescentava leite no café. Mas cometeu o erro de entrar pela porta dianteira.

_ Não pise no altar sagrado com teus pecados não arrependidos. Oras, eu já não disse que não se pode entrar aqui? Sem café da manhã para você. Vá jejuar e repensar seus atos, mendigo.

Deu meia volta, desceu do altar, parou no meio do caminho e se virou para perguntar gesticulando qual das duas portas deveria usar para sair.

Foi até a outra praça, em jejum, cumprimentar seu Getúlio.

_ Olha, olha, se não é meu velho Vargas, tenho medo de chegar algum dia e o senhor ter cobrado vida e sair daí. Sei que quando precisarmos você volta, Getúlio. E eu já estou quase precisando!

_ Olá, dona Telma, veio bonita para o trabalho hoje! Quando eu arrumar um emprego vou comprar uma roupa igual da senhora. - duas meninas, sentadas no banco, riram com a frase, o que o obrigou a se explicar - Igual de bonita, e eu sou louco de usar saias?

Bem, louco as meninas tinham certeza de que sim, mas se usava saias elas ainda não sabiam, de qualquer modo disfarçaram os risos.

Dona Odete lhe fez um gesto para que entrasse na lanchonete, ganhou um pastel de angu recheado de taioba, a taioba era do dia anterior e estava um pouco passada, mas como sempre, uma delícia.

_ Odete, você sabe aquela história de Deus?
_ Que história, mendigo?
_ Que Deus uma vez disse que a gente tinha que ter um casal pra entrar na arca que leva para o céu?

Antes de Odete se animasse a comentar o que acabava de ouvir, o mendigo saiu correndo porque dona Frola já se aproximava da praça, ele odiava que tivessem estrangeiros na cidade. O velho Getúlio era mais nacionalistas, agora ninguém cuidava de seu país. Tomara que o Getúlio ressuscite.

_ Bom dia dona Frola!
__ Ei mendigo, estou um pouco atrasada, não me pare.
_ Mas não vou parar não, só vou acompanhar a senhora. É que a senhora parece tanto minha mãezinha, e hoje seria aniversário de 79 anos, se ela tivesse viva.
_ Ah, lamento muito mendigo. - Dizia apressada caminhando com suas pernas curtinhas, porque Ponza não gostava de atrasos.
_ E antes de morrer desidratada em um verão, lá na outra cidade que morávamos, ela disse baixinho: filho, não importa o que aconteça, beba muito liquido e faleceu.

Dona Frola deu uma risada e disse que nem insistisse com suas piadas porque hoje não lhe daria nenhuma moeda, sabia que a última ele tinha gastado em cachaça.

_ E acaso cachaça não é liquido? Só estou seguindo minha mãe.

Saiu correndo atrás de uma pomba.

Dona Frola

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O rosto rosado, a pele branquinha, fofa, debaixo dos panos de estampas grandes, cabelo branquinho. Dona Frola era o estereótipo, vovó amada, dessas que estampam marcas de bolo hoje. Naquele dia combinava os brincos rosados, com um colar das mesmas pedras, e o estampado eram grandes flores da mesma tonalidade. Se perfumou e saiu de casa sorrindo.

Antes de chegar a esquina encontrou com Francisco, pediu que ele fosse vê-la mais tarde para combinarem de capinar o quintal, podar as flores e aproveitasse para limpar a calha e o telhado, pois parecia entupido na última chuva.


A conversa lhe fez atrasar um pouco, quando chegou ao Casarão Tildina já estava angustiada com a carta prendida no pregador, preparada para lançá-la. Com os passos curtos Frola alcançou o barbante, substituiu as cartas e gritou algumas palavras.

Caminhou até a porta da casa, esticou os braços para o sogro, mais uma vez sem entender como as mulheres de hoje tem dia passavam tanto tempo telefonando na janela. Em sua época qualquer mulher que passasse o dia posada na janela era "maria namoradeira", uma coisa horrível de se ser.

Avisou a Ponza que precisava ir ao médico, há três dias vinha tossindo muito, principalmente pela noite, acordava com a garganta seca. Soube que Tildina também está assim, vou preparar um xarope com o meu que você me trouxe, Ponza, e depois você leva um pouco para ela também.

_ Claro, dona Frola, não se preocupe, sua filha ficará bem logo. - ele não podia esconder na pressa de seus passos o nervosismo ao perceber que se atrasaria ao trabalho.

Por fim chegaram ao médico. Dr. Afonso gostava muito de dona Frola. Às vezes sua conversa era muito conservadora, mas era uma boa velhinha. Os dois conversaram por vinte minutos e riram bastante, Frola fez o pagamento da consulta na secretaria, e foi embora para a casa ler a carta de sua filha e redigir a do dia seguinte.

Queria mamãe,

Fiquei muito preocupada em ler sobre o avanço de sua tosse, espero que vá ao médico amanhã. (...)

E continuavam mais duas pautas de confissões e pedidos de conselho para a mãe. No envelope uma pequena flor de camomila, que dava em seu jardim e a mãe considerava a mais bonita das flores. Terminou a leitura e começou a redigir sua carta à maquina, talvez fosse uma Olivetti elétrica.

(...) Nunca me senti tão humilhada como aqui Tildina, estamos há meses, não desmerecemos a ninguém, não tratamos mal a nenhum deste cidadãos e por algum motivo provocamos muita curiosidade, inveja e repugnância. Nos espiam da janela, perguntam coisas desagradáveis a mim. O mendigo da praça me parece o mais entendível do lugar.