formigas

sábado, 3 de dezembro de 2016 |

Lembro que pra chegar nas ruínas do parquinho da escola era preciso passar por um buraco entre o muro e o chão, provavelmente sujar o uniforme banco de terra, provavelmente tomar bronca da professora e da mãe, mas atravessávamos.
Não lembro bem os detalhes anteriores, só que estávamos ali, peito e barriga no chão, as orelhas coladas em duas saídas do mesmo formigueiro, como sabemos que as saídas são do mesmo formigueiro? E se jogarmos água pra conferir? Aí vamos matar as formigas, então é preciso somente acreditar, pois Papai Noel, Deus e Formigas não podemos questionar muito ou nunca vamos entendê-los.
Com as orelhas ainda coladas no chão nos perguntávamos um ao outro se já tinha conseguido ouvir algo, um arrastar de folhas e patas, ou a conversa delas, mas só dava pra ouvir as crianças correndo e gritando pelo pátio.
_ O mundo é muito barulhento, por isso a gente não ouve as formigas.
_ Se a gente conseguir um lugar muito muito silencioso e escutar as formigas o que você acha que elas vão nos dizer?
_ Que somos barulhentos!
_ Eu acho que elas devem pensar que somos gigantes.
_ Nós somos!
_ Mas tem animal mais gigante que a gente, o gigante é maior que tudo e todos, nós não somos.
_ Então melhor que gigante é ser miniatura, como as formigas, que ninguém escuta seus segredos.
_ Você acredita que formigas falam entre si?

O retorno do Velho

terça-feira, 13 de setembro de 2016 |

Com que tamanha surpresa me deparei, quando - já passados 15 anos - abri a porta e me deparei com ele sentado e zangado ali na calçada. Abri um sorriso, meu coração disparado, demasiada alegria, eu já pensava que o Velho tinha morrido.

_ Mas eu sobrevivi. E não venha com sorrisinhos não, que eu sei que a senhora não gosta de mim. E você já tá uma senhora mesmo, não é? Mas velha e solteira, que idade tens, menininha?
_ Agora tenho um quarto de século.
_Quarto de século, com essas contas eu já tinha tido meu segundo filho.
Filhos? Eu não sabia que ele tinha filhos. Era estranho saber disso tanto tempo depois. Fiquei perdida, não sabia bem o que perguntar ou falar. Queria lhe dar um grande abraço. Não me aguentei, abracei o Velho, nunca em minha vida tínhamos nos abraçado.
_ Estou furioso, menina, furioso! Olhe para os meus pés.
Abaixei o olhar e vi uma botina, não tinha certeza se o tecido era couro de cavalo, mas era bastante parecido, num tom de marrom que me fazia lembrar minha infância na roça. - voltei a sorrir. Como as memórias são sempre um bom passeio.
_ O que foi? O número é pequeno, algo assim? Continua sempre rabugento, né?
_ Eu levava Vinte E Oito Anos - assim, em maiúscula - amaciando meu último sapato. Ele já tinha passagem de ar perfeita para os meus pés e era tão macio como pisar o chão. Você me entende? Era praticamente como não usar sapatos, mas sem ofender à sociedade.
Me lembrei de cada detalhe do pé do Velho, a unha do dedão do pé esquerdo tinha sempre uma linha como se estivesse rachado ao meio, ele contava que tinha sido um facão. Que numa briga de bar, alguém jogou a faca nele e pegou ali no dedão do pé, e aquilo na unha era uma cicatriz. Cicatriz de unha, eu nunca tinha visto outra pra julgar se é verdade, então fica sendo.
Antes que ele se incomodasse com tanto silêncio da minha parte, resolvi perguntar qualquer coisa, como, por exemplo, o que ele tinha feito nos últimos 15 anos, porque havia desaparecido.
Lembro bem como ele fechou o cenho, apertando todas as linhas do rosto pra dentro, com o dedo indicador levantado em minha direção.
_ Olhe menina, eu só não te jogo uma pedra pra você parar de perguntar besteira, porque quero falar do assunto pelo qual eu voltei. Eu estava lá no norte, pra depois daquele rio famoso que esqueci o nome, eu tava há 15 anos de distância daqui, pensa que longe eu tava. Aí um dia um cara veio me falar assim, que já tinha ido praquelas bandas, e tinha amigos lá. E num é que o safado disse o seu nome? Que era seu amigo, que te conhecia, e falou tanto de você, que gostava de você, que eu acho que fiquei me iludindo as lembranças, como se eu gostasse de você também, e resolvi vir. Foi isso, deu saudade. Não significa que eu gosto de você não. Tu é muito danada, vai ficar se achando que eu sei. - cruzou os braços.
_ Mas Velho, que ótimo que você veio, eu gosto muito de você, não importa se você gosta de mim, e se a saudade que sentiu era boa ou ruim, me alegro de saber que você está vivo e que voltou pra me dar esse abraço.
_ Dar abraço coisa nenhuma, que você que me agarrou à força ali, eu não te abracei nada. - teimoso! - E é claro que eu tô vivo, você tá ai com um quarto de século e acha que sabe se virar mais do que eu, que já tenho 4 dos seus na coleção e cinco anos mais?
Ri alto! Você tem 105 anos?, era o que faltava.
_ 105 anos? Além de não gostar de sapato novo, tem 105 anos, dois filhos, é imortal, o que mais Velho? Conte-me mais de suas lendas.
_ Garota, eu estou perdendo a paciência com você. Achei que os últimos 15 anos tinham te ensinado algo, mas pelo visto você continua teimosa! Eu já te expliquei, que se é você quem escreve o que eu digo, eu não sou imortal, mas eu vivo todos os anos que você viver para me escrever, e 3 outras vidas paralelas ou mais, que são as que você não escrever.
_ Infinitas paralelas mais, eu disse.
E ele, sem saber o tamanho do infinito, o que achei um dessaber bonito:
_ E o infinito será muito maior que três?
Percebi, que eu não sei o tamanho de três. Será que três é muito grande? Três o que? E o infinito, será maior que três? Muito maior? Então quanto seriam três infinitos? Percebi escorrer uma lágrima no rosto do Velho.
_ Eu voltei por isso. Se eu não cuidar de você, você morre, e eu morro, minha vida é dependente da sua, isso chama Inquilinismo, minha filha, o que significa uma relação em que em uma relação de dois indivíduos, um deles se beneficia da relação e o outro não. No caso você se beneficia dos meus conselhos, e eu não me beneficio de nada, só não morro.
_ E a sobrevivência não é um benefício?
_ Nestas condições que você me deixa? Bêbado, bebendo pinga branca em garrafas verdes, e agora com estes sapatos novos? Mas eu quero que você morra logo, pra acabarem essas condições de merda em que vivo.
_ Acho que vivemos em protocooperação, você bebe, se diverte, viaja, até ganha sapatos novos, enquanto eu estou viva, sempre movida pela esperança de encontrar você algum dia sentado na calçada de casa.
Ele tirou o fumo do bolso e começou a enrolar na palha e assoviar alguma canção de passarinho.
_ Eu era muito bom em biologia, o melhor aluno da sala, só não virei médico porque eu não tinha dinheiro, mas eu tinha o conhecimento pra entrar na faculdade de médico. Eu tirei dez em biologia, agricultura, ciências naturais, corpo humano, citologia. Todas as matérias das biológicas, eu era um craneo. Agora só sirvo pra imitar passarinho e amaciar sapato.
_ Já comeu algo? - me apressei em pensar o que tinha na geladeira.
_ Já! Se eu tivesse fome eu pedia, não precisa oferecer como se estivesse preocupada comigo, eu sei me virar até pra pedir. - engasgando com a própria voz.
Ele se levantou, colocou a pequena garrafa verde no bolso da camisa, apanhou um galho torto de árvore, todo talhado à mão, por ele mesmo - que outro dia eu conto - e saiu rumo à praça, sem despedir. Carregando seus 105 anos na coluna.


quarta-feira, 31 de agosto de 2016 |

Estou há mais de 15 anos inventando essa mentira, testo contando como se fosse verdade, já não posso parar de aumentá-la, às vezes ela parece maior que a realidade, as vezes parece que posso me entregar a ela e viver só dela, que a realidade é muito mais mentirosa.

Estou há mais de 15 anos concebendo personagens novos para essa velha ficção, mas a narrativa dela não sai de moda.

A mentira é a melhor linguagem.

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ler um diário antigo
e não reconhecer-se
na própria letra
parece bem pior que
encontrar os primeiros fios brancos

Elevadores e sorrisos

quarta-feira, 1 de junho de 2016 |

Não sei há quanto tempo eu não entrava em um elevador, e eu sempre penso em ir pela escada, elevadores me geram ansiedade. Pensei bem, eram 8 andares, meu joelho inchado foi quem apertou o botão. A contagem regressiva começou do 12, 11, 10 até o 1. E eu pesando que já teria feito dois andares neste tempo. A porta se abre, entro aperto o 8, constrangida por ter mais alguém no mesmo metro quadrado.
_ Eu queria subir pro 15, mas desceu ao invés de subir, acho que fiz algo errado.
_ Eu gosto de sorrisos de mendigos. E de crianças.
_ Que?
_ Nada, você contou o que você tava pensando, eu tô pensando em sorrisos. Aqui no elevador ninguém sorri né.
Ele sorriu.

sexta-feira, 27 de maio de 2016 |

Querido diário,

Hoje fui no boteco e acabou a catuaba, achei amador.
Vamos ver se a vida supera esse baque.

Afinal...

Homem-pássaro

sexta-feira, 20 de maio de 2016 |

Eu pensava que eu era um passarinho. Eu tentei voar várias vezes, já quebrei todos ossos possíveis. Eu ficava muito chateado de não conseguir voar, todos meus irmãos passarinhos já tinham voado, eu queria migrar com eles, mas eu nem podia voar, eu era muito frustrado, coloquei minhoca na boca de tanto irmão passarinho já, aí por fim eu fiquei com raiva e comia as minhocas sozinho, não dividia.
Aí esse médico me curou, foi bom por que eu não me machuco mais, mas eu continuo sem lembrar nada sobre o meu passado, eu não ninguém, nem um homem, nem um pássaro e continuo querendo migrar.

Dona Eulália viajou de avião

terça-feira, 3 de maio de 2016 |

Faz um mês da primeira parte desta história, naquele dia dona Eulália, a chefe de limpeza da empresa, chegou afoita me procurando, gritava meu nome pelos corredores, perguntava se alguém me viu. Por fim, quando eu saí do banheiro ela disparou a falar, primeiro me desejou um bom dia, disse que precisava da minha ajuda, que estava ansiosa - e eu podia ver como estava.

A irmã se chama Margareth, faz 20 anos que não se vêem, Eulália se mudou pra cá por conta de uma paixão, só não se arrepende pelos filhos que teve, mas não devia ter se mudado, não devia ter se casado, homem não presta e ela nunca mais viu as irmãs, Margareth também teve filhos, e uma das filhas, Lalinha, que também se chama Eulália, em homenagem a ela, resolveu pagar uma passagem de avião para dona Eulália, ou tia Eulália. Será perigoso andar de avião? Eu que já andei não devo ter medo, mas ela, na idade dela, ela não é dessas coisas, mas também não pode viajar três dias em ônibus, o corpo já não aguenta.

Senti que minha face revelava o turbilhão de informação que eu recebia, eu me assustava, incomodava, franzia o cenho, forçava um sorriso. Dona Eulália seguia, então a sobrinha ia pagar a passagem e ligou naquela manhã pra dizer que tinha uma promoção, que naquele preço dava pra ela ir e, finalmente, se eu podia ajudar ela a comprar, ela só sabia ligar o computador pra ver as fotos no Facebook, as fotos que Lalinha postava e os filhos dela recebiam, e me garantia que era verdade, ela via foto da irmã na tela do computador, a informática era um trem de louco.

Fomos comprar a passagem, com toda burocracia que é comprar uma passagem aérea, foi difícil convencer a dona Eulália que ia dar certo, cada mensagem de erro, cada vez que eu pedia um novo documento, ela revidava, será que eles estão pensando que eu não tenho o dinheiro? Será que é porque eu nunca viajei de avião? Eu disse que não, a coisa era assim mesmo. Ah, então deve ser por causa do pessoal que viaja pros Estados Unidos, a irmã caçula dela e de Margareth, que se chamava Áurea viajou pra lá, morava lá agora, mas ela foi pelo rio, lá pelo México e se casou com um mexicano, tinham dois filhos parrudos, morenos, eu precisava vê-los, que's meninos mais lindos. Quem sabe um dia os sobrinhos americanos pagassem passagem pra ela ir lá, e corou a face.

Compramos a passagem, imprimi o comprovante, expliquei como ela ia usar, ajudei ela a conseguir a folga com o chefe, desejei toda sorte nas férias, vinte e duas vezes seguidas, porque ela passou a me visitar vinte minutos todos os dias, perguntava como era o avião, como tinha que se portar, decidiu comprar uma mala nova, não ia com mala de vinte anos atrás num aeroporto chique, todo mundo ia rir dela, ela odiava que caçoassem dela. Cortou o cabelo, comprou roupas, presentes para as irmãs e os sobrinhos, me pediu opinião sobre tudo isso. Ouvi casos, muitos casos.

Quando a data se aproximou ficou muito nervosa, disse que estava velha, as irmãs iam achá-la feia, as sobrinhas não a conheceram da juventude, quando ela era muito bonita e podia escolher marido. Queria conhecer Lalinha, queria poder levar os filhos na mala. Ah, a mala, isso de pode e não pode era uma confusão, não podia levar queijo, e as meninas estavam doidas para conhecer o queijo, um absurdo, tecido bonito para as irmãs costureiras podia e as tesouras tinham que ir na bagagem de despacho. Despacho, parece até coisa de candomblé, bagageiro era muito melhor. Prometeu a si mesma que não ia de cinto, morria de medo de ser parada na máquina que apita e acharem que ela estava com arma e fosse só a fivela, ia ser um micão.

Eulália me perguntou como eram todos os procederes do avião, o que tinha que fazer, onde tinha que ir, como era tudo, se as pessoas falavam inglês. Toda a família me adicionou no Facebook, me convidou para ir junto, disse que mandaria presentes. Resolvi mandar um presente, mandei um pote de doce de leite do meu favorito. No último dia Eulália foi embora no meio do expediente, com os olhos lacrimejando, me agradeceu, prometeu trazer presentes, me contou sobre o dia que se mudou pra cá, como saiu de lá, que horrível despedir e sua chegada também não tinha sido fácil. Disse que mandaria fotos e cogitou não voltar, que eu não falasse com o chefe, ela não tinha falado nem com os filhos. Eu chorei.

As últimas palavras antes de sair do escritório foram "me sinto tão chique, não sei se é mais chique voar em avião ou conhecer meus sobrinhos" e se foi. Por uns segundos fiquei com um sorriso no rosto, pensando que era tão normal andar de avião e dona Eulália era simples. Aí pensei, que era chique ser normal andar de avião e dona Eulália era a mulher mais chique que conheci. Um mês depois as irmãs de Eulália me escreveram, ela resolveu ficar pra sempre, se dava tempo de eu chegar para o velório.

*Como tudo neste blog trata-se de uma obra de ficção.

A violência não é única

quarta-feira, 20 de abril de 2016 |



Traduzi este texto para que uma amiga lesse a achei que devia publicar em algum lugar, para que outras pessoas pudessem ler, nunca usei este blog para este tipo de postagens, mas não vou criar outra página apenas para publicar a tradução.

Trata-se da tradução do texto de uma comunicadora (?) argentina, conhecida sobretudo por seus vídeos e programas humorísticos, o texto é sobre violência de gênero e bastante esclarecedor. A tradução é livre título original seria "A violência não é uma/La violéncia no es una", mas para compreensão mais orgânica em português traduzi como "a violência não é única", tomei o mesmo tipo de liberdade em outras partes do texto.



A VIOLÊNCIA NÃO É ÚNICA

Malena Pichot


Sempre que se fala de violência de gênero parece que muitos começam a se incomodar, o repúdio é imediato, instantâneo, muito parecido a uma reação programada. Quando se fala de violência de gênero uma frase se repete em todos aqueles que se negam a refletir de verdade sobre o tema: “a violência é única”. Este é o lugar comum para tornar invisível um problema que para muitas pessoas é obscenamente visível. “A violência é única” é a frase mais perigosa que li nos últimos tempos nas redes. Quando se diz isto, estamos igualando uma infinidade de conflitos, que de nenhuma maneira são iguais. Não é o mesmo que dois homens troquem socos, a que um homem dê socos em um ou uma menor. Não é o mesmo que duas mulheres se troquem socos, a que uma mulher dê socos em um ou uma menor. Não é o mesmo que te bata um colega de sala a que te bata um professor. Não é o mesmo que te bata um desconhecido na rua a que te bata um policial. Não é o mesmo que te sequestre um criminoso comum a que te sequestre uma organização paramilitar do estado. Não é o mesmo. Podemos encher a boca dizendo que toda violência está mal, sim claro, quem discutiria, mas com estas sentenças óbvias e vazias chegamos apenas até aqui.

A realidade é que estas violências estão muito claras, porque são irrefutavelmente condenadas pela sociedade e não é preciso explicar a ninguém o que significam, não é preciso convencer ninguém de que são verdades e de que acontecem. Agora, quando se trata da violência de gênero, essa violência que parte especificamente do homem heterossexual como representante do discurso hegemônico, aí já ninguém quer falar do tema. Ninguém quer falar profundamente disto, porque não queremos nos colocar contra aos homens heterossexuais de nossas vidas a quem tanto amamos. Mas, não é hora de deixar de ter medo inclusive dos homens queridos de nossas vidas, para poder dizer e pensar o que queremos realmente?

Ninguém quer se meter muito, porque meter-se na violência de gênero é em parte aceitar que todos e todas podemos estar formando parte do problema. Parece que o mais difícil de aceitar é também o mais óbvio: que um homem bata em uma mulher não é o mesmo que uma mulher bata em um homem. Doa a quem doer. Claro que ambas estão mal, mas não são o mesmo. E também é difícil de aceitar que nem toda violência exercida a uma mulher tem a ver com uma questão de gênero, com o fato de que seja mulher. Se fosse assim ninguém poderia nunca fica com raiva de uma mulher, o que é ridículo. As mulheres (oh surpresa) somos pessoas e como tais, podemos ter todas as qualidades das pessoas, podemos ser honestas ou criminosas, boas ou más e todos seus cinzas. As mulheres não somos “seres alados de pura bondade”. Alguma vez você vai insultar uma mulher E não será violência de gênero. Não é o mesmo insultar a alguém porque te mentiu a insultar alguém por sua sexualidade. Não é o mesmo insultar a alguém porque chegou tarde a insultá-lo por sua origem. Não é o mesmo insultar a alguém porque te roubou a insultá-lo porque já não quer te ver mais. Não é o mesmo um ladrão que bate em homens e mulheres em um roubo, a um marido que bate em sua esposa sistematicamente. Não é o mesmo. Colocar tudo na mesma bolsa de “a violência é única” é fazer um esforço para não entender o problema.

Quantas vezes você viu um homem maltratar severamente a sua namorada ou esposa e não disse nada porque te pareceu que era “um tema particular deles”? Quantas vezes escutou “fulano bate em fulana” e por dentro pensou “bom, se ela não o larga por algo será”? Quantas vezes escutou o depoimento de uma vítima de uma violação e disse “tem que ver se é tão assim, eu não acredito”? Quantas vezes escutou que seu ídolo era um abusador e escolheu dizer “isto é impossível” e não pensou mais no assunto?

O que acontece com a violência de gênero diferente de qualquer outro tipo de violência é um primeiro impulso de negação, e por isso diferente das outras é uma violência endossada pelo estado. Esse primeiro impulso de negação é o que o discurso hegemônico programou em nossas mentes ao longo de nosso desenvolvimento nesta cultura. É a concepção da mulher como objeto e possessão do homem, homem que tem o direito de fazer o que quer com nosso corpo: “se você vai à casa de um cara é para transar, se não fique na sua”, escuramos infinidade de vezes. Então, se você entra na casa de um cara já perdeu toda condição de pessoa e é um objeto dele, igual que seu sofá. Nos ensinam, às mulheres, a agradar aos homens em tudo, mas depois se suspeita de nós se não sabemos nos defender. A violência de gênero é a violência e o abuso a pessoas exclusivamente por pertencer a um gênero que não é o dominante. Como feminista creio na importância de desarmar a ideia de dois gêneros únicos, mas está claro que há um gênero dominante e opressor nesta cultura patriarcal e é o gênero masculino, acreditar que um homem cisheterossexual pode ser discriminado por ser um homem cis heterossexual é o maior absurdo do mundo. As personas homossexuais, travestis e trans são golpeadas e mortas exclusivamente por isso, só por isso, às mulheres nos matam por dizer que NÃO. Nenhum homem heterossexual é brutalmente assassinado por ser um homem heterossexual, e isso é importante entender de uma vez por todas.

A violência NÃO É ÚNICA, há uma violência homofóbica, há uma violência transfóbica, há uma violência de gênero, há uma violência institucional, há violência familiar, violência laboral e seguramente muitas mais com as que não estou familiarizada e espero poder fazê-lo no futuro. Compreendê-las, analizá-las, investigar sua origem é a maneira de combatê-las. Aceitar que podemos estar fomentando estas violências desde nossa ignorância é um passo duro que é preciso que dar. Todos somos machistas porque nascemos e crescemos nesta cultura, mas algumas pessoas decidimos nos corrigir a cada passo.

Link para o original: http://www.malenapichot.com/la-violencia-no-es-una

A menina volta a me questionar

domingo, 3 de abril de 2016 |

A criança: mas como você decide se gosta ou não de alguma coisa?
Eu: decidindo se você acha aquilo bom ou ruim, certo ou errado.
A criança: então você tá dizendo que eu não posso achar ruim e errado, e mesmo assim gostar?
Dois minutos de silêncio. É que eu não posso responder a verdade.
Eu: Não. É uma espécie de ditadura do gostar.
A criança: e o que é ditadura? É mais dura que quebra-queixo?