terça-feira, 29 de agosto de 2017 |

Não mando flores que morrem em vasos de água
Planto jardins em sua memória
Completamente exagerada
Te escreverei poemas no café da manhã
E negarei a autoria antes que venha o almoço
Sentirei o gosto da sua pele em cada chá que eu tomar
Depois esquecei como é teu beijo
Alguns dias vou querer te abraçar para dormir
Em outros vou ficar pelo sofá
No espelho começarei a encontrar gestos seus
E não vou gostar
Vou te pedir pra ir embora da casa
E vou arrastar os móveis
Limparei tudo quando você se for
Tirando qualquer vestígio da sua passagem
Até na minha mente você virar miragem
Então eu amarei outros corpos macios como o teu
Eu beijarei bocas de café
Achando fraco teu chá
Trocarei os jardins por florestas
Mas na primavera
Quando tomar um café da manhã
Entre as flores
Vou te desejar para o almoço
E talvez tu seja só uma miragem
A qual eu sempre poderei voltar antes de dormir sozinha

Espelhos quando quebram

sábado, 6 de maio de 2017 |

quando acordo e me encaro no espelho
ela projeta, sobre mim, um olhar como quem diz
"eu sei tudo o que passa pela sua cabeça"
e eu me sinto nua

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017 |

existe um modo útil de brigar: vi hoje duas crianças que brigavam fazendo careta uma pra outra, no final da briga elas estavam rindo e se sentiam amigas de novo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017 |

Eu sonhei
E não posso voltar lá
É impossível dar abraços em meus sonhos
Nem tenho certeza
Se eu remei junto a Caronte
Se descemos aquele rio juntos
Lembro do seu sorriso, desperto
Os olhos abertos e as sobrancelhas grossas
Eu sentia frio e sabia que logo ia acordar
Exitei por um abraço
E as regras são tão claras
Que acordei
E um rio corria em meus olhos
Antes de abrir os olhos eu prometia te buscar
Sopraria em seus pulmões até eles voltarem a funcionar

formigas

sábado, 3 de dezembro de 2016 |

Lembro que pra chegar nas ruínas do parquinho da escola era preciso passar por um buraco entre o muro e o chão, provavelmente sujar o uniforme banco de terra, provavelmente tomar bronca da professora e da mãe, mas atravessávamos.
Não lembro bem os detalhes anteriores, só que estávamos ali, peito e barriga no chão, as orelhas coladas em duas saídas do mesmo formigueiro, como sabemos que as saídas são do mesmo formigueiro? E se jogarmos água pra conferir? Aí vamos matar as formigas, então é preciso somente acreditar, pois Papai Noel, Deus e Formigas não podemos questionar muito ou nunca vamos entendê-los.
Com as orelhas ainda coladas no chão nos perguntávamos um ao outro se já tinha conseguido ouvir algo, um arrastar de folhas e patas, ou a conversa delas, mas só dava pra ouvir as crianças correndo e gritando pelo pátio.
_ O mundo é muito barulhento, por isso a gente não ouve as formigas.
_ Se a gente conseguir um lugar muito muito silencioso e escutar as formigas o que você acha que elas vão nos dizer?
_ Que somos barulhentos!
_ Eu acho que elas devem pensar que somos gigantes.
_ Nós somos!
_ Mas tem animal mais gigante que a gente, o gigante é maior que tudo e todos, nós não somos.
_ Então melhor que gigante é ser miniatura, como as formigas, que ninguém escuta seus segredos.
_ Você acredita que formigas falam entre si?

O retorno do Velho

terça-feira, 13 de setembro de 2016 |

Com que tamanha surpresa me deparei, quando - já passados 15 anos - abri a porta e me deparei com ele sentado e zangado ali na calçada. Abri um sorriso, meu coração disparado, demasiada alegria, eu já pensava que o Velho tinha morrido.

_ Mas eu sobrevivi. E não venha com sorrisinhos não, que eu sei que a senhora não gosta de mim. E você já tá uma senhora mesmo, não é? Mas velha e solteira, que idade tens, menininha?
_ Agora tenho um quarto de século.
_Quarto de século, com essas contas eu já tinha tido meu segundo filho.
Filhos? Eu não sabia que ele tinha filhos. Era estranho saber disso tanto tempo depois. Fiquei perdida, não sabia bem o que perguntar ou falar. Queria lhe dar um grande abraço. Não me aguentei, abracei o Velho, nunca em minha vida tínhamos nos abraçado.
_ Estou furioso, menina, furioso! Olhe para os meus pés.
Abaixei o olhar e vi uma botina, não tinha certeza se o tecido era couro de cavalo, mas era bastante parecido, num tom de marrom que me fazia lembrar minha infância na roça. - voltei a sorrir. Como as memórias são sempre um bom passeio.
_ O que foi? O número é pequeno, algo assim? Continua sempre rabugento, né?
_ Eu levava Vinte E Oito Anos - assim, em maiúscula - amaciando meu último sapato. Ele já tinha passagem de ar perfeita para os meus pés e era tão macio como pisar o chão. Você me entende? Era praticamente como não usar sapatos, mas sem ofender à sociedade.
Me lembrei de cada detalhe do pé do Velho, a unha do dedão do pé esquerdo tinha sempre uma linha como se estivesse rachado ao meio, ele contava que tinha sido um facão. Que numa briga de bar, alguém jogou a faca nele e pegou ali no dedão do pé, e aquilo na unha era uma cicatriz. Cicatriz de unha, eu nunca tinha visto outra pra julgar se é verdade, então fica sendo.
Antes que ele se incomodasse com tanto silêncio da minha parte, resolvi perguntar qualquer coisa, como, por exemplo, o que ele tinha feito nos últimos 15 anos, porque havia desaparecido.
Lembro bem como ele fechou o cenho, apertando todas as linhas do rosto pra dentro, com o dedo indicador levantado em minha direção.
_ Olhe menina, eu só não te jogo uma pedra pra você parar de perguntar besteira, porque quero falar do assunto pelo qual eu voltei. Eu estava lá no norte, pra depois daquele rio famoso que esqueci o nome, eu tava há 15 anos de distância daqui, pensa que longe eu tava. Aí um dia um cara veio me falar assim, que já tinha ido praquelas bandas, e tinha amigos lá. E num é que o safado disse o seu nome? Que era seu amigo, que te conhecia, e falou tanto de você, que gostava de você, que eu acho que fiquei me iludindo as lembranças, como se eu gostasse de você também, e resolvi vir. Foi isso, deu saudade. Não significa que eu gosto de você não. Tu é muito danada, vai ficar se achando que eu sei. - cruzou os braços.
_ Mas Velho, que ótimo que você veio, eu gosto muito de você, não importa se você gosta de mim, e se a saudade que sentiu era boa ou ruim, me alegro de saber que você está vivo e que voltou pra me dar esse abraço.
_ Dar abraço coisa nenhuma, que você que me agarrou à força ali, eu não te abracei nada. - teimoso! - E é claro que eu tô vivo, você tá ai com um quarto de século e acha que sabe se virar mais do que eu, que já tenho 4 dos seus na coleção e cinco anos mais?
Ri alto! Você tem 105 anos?, era o que faltava.
_ 105 anos? Além de não gostar de sapato novo, tem 105 anos, dois filhos, é imortal, o que mais Velho? Conte-me mais de suas lendas.
_ Garota, eu estou perdendo a paciência com você. Achei que os últimos 15 anos tinham te ensinado algo, mas pelo visto você continua teimosa! Eu já te expliquei, que se é você quem escreve o que eu digo, eu não sou imortal, mas eu vivo todos os anos que você viver para me escrever, e 3 outras vidas paralelas ou mais, que são as que você não escrever.
_ Infinitas paralelas mais, eu disse.
E ele, sem saber o tamanho do infinito, o que achei um dessaber bonito:
_ E o infinito será muito maior que três?
Percebi, que eu não sei o tamanho de três. Será que três é muito grande? Três o que? E o infinito, será maior que três? Muito maior? Então quanto seriam três infinitos? Percebi escorrer uma lágrima no rosto do Velho.
_ Eu voltei por isso. Se eu não cuidar de você, você morre, e eu morro, minha vida é dependente da sua, isso chama Inquilinismo, minha filha, o que significa uma relação em que em uma relação de dois indivíduos, um deles se beneficia da relação e o outro não. No caso você se beneficia dos meus conselhos, e eu não me beneficio de nada, só não morro.
_ E a sobrevivência não é um benefício?
_ Nestas condições que você me deixa? Bêbado, bebendo pinga branca em garrafas verdes, e agora com estes sapatos novos? Mas eu quero que você morra logo, pra acabarem essas condições de merda em que vivo.
_ Acho que vivemos em protocooperação, você bebe, se diverte, viaja, até ganha sapatos novos, enquanto eu estou viva, sempre movida pela esperança de encontrar você algum dia sentado na calçada de casa.
Ele tirou o fumo do bolso e começou a enrolar na palha e assoviar alguma canção de passarinho.
_ Eu era muito bom em biologia, o melhor aluno da sala, só não virei médico porque eu não tinha dinheiro, mas eu tinha o conhecimento pra entrar na faculdade de médico. Eu tirei dez em biologia, agricultura, ciências naturais, corpo humano, citologia. Todas as matérias das biológicas, eu era um craneo. Agora só sirvo pra imitar passarinho e amaciar sapato.
_ Já comeu algo? - me apressei em pensar o que tinha na geladeira.
_ Já! Se eu tivesse fome eu pedia, não precisa oferecer como se estivesse preocupada comigo, eu sei me virar até pra pedir. - engasgando com a própria voz.
Ele se levantou, colocou a pequena garrafa verde no bolso da camisa, apanhou um galho torto de árvore, todo talhado à mão, por ele mesmo - que outro dia eu conto - e saiu rumo à praça, sem despedir. Carregando seus 105 anos na coluna.


quarta-feira, 31 de agosto de 2016 |

Estou há mais de 15 anos inventando essa mentira, testo contando como se fosse verdade, já não posso parar de aumentá-la, às vezes ela parece maior que a realidade, as vezes parece que posso me entregar a ela e viver só dela, que a realidade é muito mais mentirosa.

Estou há mais de 15 anos concebendo personagens novos para essa velha ficção, mas a narrativa dela não sai de moda.

A mentira é a melhor linguagem.

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ler um diário antigo
e não reconhecer-se
na própria letra
parece bem pior que
encontrar os primeiros fios brancos

Elevadores e sorrisos

quarta-feira, 1 de junho de 2016 |

Não sei há quanto tempo eu não entrava em um elevador, e eu sempre penso em ir pela escada, elevadores me geram ansiedade. Pensei bem, eram 8 andares, meu joelho inchado foi quem apertou o botão. A contagem regressiva começou do 12, 11, 10 até o 1. E eu pesando que já teria feito dois andares neste tempo. A porta se abre, entro aperto o 8, constrangida por ter mais alguém no mesmo metro quadrado.
_ Eu queria subir pro 15, mas desceu ao invés de subir, acho que fiz algo errado.
_ Eu gosto de sorrisos de mendigos. E de crianças.
_ Que?
_ Nada, você contou o que você tava pensando, eu tô pensando em sorrisos. Aqui no elevador ninguém sorri né.
Ele sorriu.

sexta-feira, 27 de maio de 2016 |

Querido diário,

Hoje fui no boteco e acabou a catuaba, achei amador.
Vamos ver se a vida supera esse baque.

Afinal...