Ouço os pássaros cantarem, mas são pássaros urbanos. Não sei como sei, meus ouvidos sabem sozinhos e não consigo imaginar que estou no campo. Deixo o quarto escuro, mas também sei que não é noite. Tento me deprimir com músicas, outra vez sei que não tenho motivos.
Assisto um filme e meio sem notar o passar das horas. Desisto do meu feriado, mas o comércio não abre. Me planejo para a quarta-feira - miercoles, isso parece palavrão - e vejo que tenho muita tarefa pra poucos dias "úteis". Lamento outra vez o feriado.
Recebo uma resposta de muito longe, como se fosse de tão perto. Sinto saudades de corresponder por carta, analisar os selos, esperar uma semana pra carta ir e outra pra resposta chegar. Me canso do imediatismo, da efusividade, das minhas músicas, dos meus livros, de astrologia, só não consigo cansar dos meus filmes. Separo uma lista deles para recomendar, recomendar pra quem? me pergunto ansiosa por algum cinéfilo para conversar.
Leio uma séries de jornais que não trazem novidade alguma. Polícia contra estudantes, estudantes contra governos, governos contra mídia, mídia contra mídia. Respiro fundo e minhas hemácias também não trabalham mais por isso.
Conto quanto tempo falta para ir embora, imagino um pão de queijo com café. Sinto o cheiro de BH, abraço saudades, penso na angústia das noites natalinas, já anseio por sair de Minas, quero viajar pra outros lugares. E lembro que nem cheguei ainda. Será que só finjo ter saudades?
Espero por acampar, pescar e caçar rãs com meu pai. Voltar com a mochila cheia de penas e sementes pro artesanato, minha terapia. Sinto o cheiro de tempero vindo da cozinha, o alho refogado com cebola e o segredo da mamãe, que segundo a Sazon é o Amor!
Falando em Amor... imagino outra vez.
(16:43 - quarto 322, Kacique Salvatti)

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