Tenho algumas dificuldades com a palavra amor. Aquilo que sinto pela minha família é segurança e apego, é difícil imaginar abandoná-los totalmente e não ter mais notícias, é como ler uma série de livros e não ler o último, estou esperando pra saber como termina a história deles. Já o que sinto pelos meus amigos é alegria e necessidade, preciso deles pra beber, pra ouvir minhas melancolias e pra ser eu. Sou a Lílian torturadora com uns, a Lílian astróloga com outros e até economista. Isso não importa.
Eu tava falando de amor. Amor também não é o que eu sentia pelos caras com os quais eu saia, aquilo era diversão, possessividade, mutualismo e interesse.
Amor é o que eu sentia pela menina que ouvia música no ônibus, com a cabeça apoiada na janela, enquanto as gotas molhavam o lado de fora do vidro. Amor é o que eu sentia pelo garoto da turma mais avançada do judô, que me fazia demorar um pouco mais trocando o Kimono só pra ver ele chegar, tirar o piercing no espelho atrás de mim, perguntar as horas pro amigo e sorrir pro espelho dizendo alguma frase tola pros seus amigos.
Ou quando eu subia da escola todos os dias me perguntando no que trabalhava aquele senhor e analisava o nó de sua gravata, por fim acabei pesquisando nós de gravatas e descobri que existiam nós esportivos, sociais e outros que já não lembro o nome. Treinava os nós com a faixa do meu kimono do judô. Por fim descobri que o tal senhor amarrava sempre o nó social, exceto às sextas-feira.
E tinha também aquele velhinho que jogava xadrez no jardim, quase nunca ganhava. Os amigos ria, e quando ele ganhava ria sozinho. Mas era um sorriso tão verdadeiro que eu também sorria. Uma vez ele me perguntou as horas e eu não soube responder.
Mas o maior amor que tive em toda minha vida foi quando asfaltaram minha rua e várias pessoas começaram a passar de bicicleta por aqui. E todos os dias as 17:47 passava o menino do boné cinza e bicicleta vermelha, passava muito rápido, mordendo os lábios e olhando adiante, às vezes suado, às vezes seco, às vezes até me via na janela, mas voltava a olhar pra frente, pensativo. E todos os dias das 17:45 às 17:47 eu ia pra janela vê-lo passar.

1 comentários:
concordo com a sua visão do amor.
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